O lado oculto dos seus pais

“O amor de Deus manifesta-se sob a forma de corpo carnal, visível e palpável, através dos pais” (A Verdade da Vida, v.1). Essas são as palavras do mestre Masaharu Taniguchi, iniciador da Seicho-No-Ie. Talvez você, que está lendo essas palavras pela primeira vez, possa estar questionando: O amor de Deus se manifesta através de meus pais? Você não conhece os meus pais. Não posso acreditar que as atitudes de meus pais possam expressar o amor de Deus. Talvez possa até duvidar da existência de Deus devido ao seu sofrimento. Penso que, aos que vivem essa situação, este texto poderá ajudá-los a descobrir o amor oculto que se aloja em seus pais.

Temos a tendência de confundir nossos pais com nossos amigos e, quando não vemos similaridade, nos decepcionamos. Mas o papel dos pais é diferente do papel dos amigos. Os amigos ficam do nosso lado, muitas vezes encobrindo nossos defeitos e erros. Mas os pais que amam verdadeiramente, tomados de uma coragem absurda a fim de conduzir os filhos para o caminho do bem, são capazes de atitudes extremas, causando eventualmente mágoa nos filhos. Eles não suportam ver aqueles que amam tanto, que geraram, educaram, num caminho de trevas e sofrimentos. A missão dos pais é orientar, proteger, cuidar, conduzir os filhos para um caminho seguro, até que eles possam decidir por si mesmos e se responsabilizar completamente por seus atos.

É comum os pais escolherem a escola infantil de seus filhos, o colégio e até o curso na faculdade. Pensando no futuro deles, os pais chegam a decidir pelos filhos, porém certos de que estão fazendo o melhor. A Seicho-No-Ie nos ensina que se agradecermos aos nossos pais, do profundo de nossa alma, o melhor nos acontecerá. Ou perceberemos que este curso será o mais adequado para o desenvolvimento do nosso talento, ou alguma situação surgirá para nos redirecionarmos na vida com a aprovação de nossos pais.

Ouvi, num seminário da Seicho-No-Ie, um relato de uma moça que estava sendo conduzida pela mãe a fazer um curso superior contra a sua vontade. Não tendo sucesso em convencer a mãe da sua frustração, começou a desenvolver trabalhos manuais de alta qualidade, espalhando por todo o seu quarto. Certo dia uma senhora, amiga de sua mãe, visitou sua casa, e foi até o quarto dela. Quando viu aqueles trabalhos artísticos ficou encantada e elogiou a moça. Sentindo o amor daquela senhora, ela acabou desabafando sobre o sofrimento que vivia em não estudar artes, mas, para atender a mãe, fazia outro curso, totalmente contrário ao seu talento. A senhora acabou por convencer a amiga sobre o talento de sua filha, e a mãe, finalmente, permitiu que a filha fizesse o tão sonhado curso.

Por esse relato podemos comprovar que, mesmo que aparentemente nossos pais estejam equivocados com relação às nossas escolhas, seguindo os pais, infalivelmente atingiremos nossos objetivos. Sentindo, no fundo do coração, um forte ideal, com certeza este se concretizará. Porém, muitas vezes, precisamos seguir as orientações dos nossos superiores para, enfim, encontrar o nosso caminho. O sentimento de gratidão é o ponto de partida e a certeza da chegada triunfante!

Conheço um jovem que também viveu uma experiência interessante. Sua mãe o conduziu ao curso de engenharia, apesar de ele sentir que não era o que realmente gostaria de estudar. Ainda assim, sem contrariá-la, estudou na Poli (USP). Nunca trabalhou como engenheiro, mas o vasto conhecimento de matemática que adquiriu no curso superior, escolhido por sua mãe, transformou-o num grande executivo da área financeira. Desse modo, mais uma vez, percebemos o amor oculto de nossos pais, que, acreditando nos filhos, conduzem-nos a caminhos vitoriosos, ainda que, no início, nós, filhos, duvidemos.

Meu pai foi conduzido pelo meu avô a estudar magistério. Ele queria ser advogado, mas meu avô desejava ver o filho professor. Meu pai o atendeu e, muitos anos depois, como preletor da Seicho-No-Ie, pôde trabalhar para difundir a Educação da Vida (Pedagogia da Seicho-No-Ie) por todo o Brasil. Graças ao fato de ser professor, desenvolveu grande eloquência e conhecimento, fundamentais no trabalho de pregação da Verdade.

O amor dos pais também se apresenta em atitudes severas. Uma pessoa muito especial, amiga minha, é mãe de uma linda menina de 10 anos. Numa certa manhã, antes de levar a filha à escola, ela foi surpreendida com um pedido desesperado da filha: Mãe, ajude-me a terminar meu trabalho, tenho de entregá-lo hoje. Faça a capa para mim! Creio que, se a menina pedisse isso a uma amiga, esta o faria na hora. Porém o pedido foi para a mãe, e uma mãe que confia na capacidade da filha e sabe que, se naquele momento fizesse o trabalho por ela, a sua filha tão amada jamais criaria a responsabilidade de fazer os seus deveres na hora certa, sem prejudicar ninguém. Falo prejudicar, porque estava na hora de a mãe ir para o trabalho, e, por causa do atraso da filha em não finalizar sua lição no dia anterior, não só a filha chegaria atrasada na escola, mas também a mãe chegaria atrasada no trabalho. Como foi resolvido? A mãe, que estuda japonês, pegou o seu livro e começou a estudar enquanto a filha terminava o “seu” dever. A mãe disse-lhe: Você vai chegar atrasada e eu também, então, enquanto você termina o seu trabalho, eu também vou estudar.

Parece severo esse ato, não é mesmo? Mas é de profundo amor. Somente quem deseja a verdadeira felicidade para um filho pode ensiná-lo, com uma atitude dessas, a ser responsável por suas obrigações, sem causar danos a ninguém. Não seriam essas as grandes virtudes que esperamos das pessoas que convivemos?

Lembro-me de outra situação, agora entre mãe e filho. O jovem, com 15 anos, pediu à mãe que o deixasse ir a uma balada com os amigos, voltando tarde da noite. A mãe o proibiu de ir, e isso irritou profundamente o filho. Inconformado com o não que recebeu, ficou muito revoltado com a mãe, não mais lhe dirigindo palavra e passando a noite toda chorando. A mãe, por sua vez, estava segura de sua decisão, apesar de sofrer com o sofrimento do filho. No dia seguinte, após a mãe chegar do trabalho, foi recebida com uma bela mesa posta pelo filho em sinal de gratidão. Não entendendo o porquê da mudança repentina de atitude, perguntou o que havia acontecido, e o filho lhe contou: Hoje, ao chegar à classe, não vi os meus amigos que me convidaram para a balada. Eles foram presos, porque estavam envolvidos com drogas. Mãe, se eu estivesse com eles teria passado uma noite na prisão e nem imagino como seria. Muito obrigado. Perdoe-me.

Muitas vezes, aos nossos olhos, os nossos pais parecem “maus”. Aprecio um texto que retrata esse assunto e transcrevo parte dele.

Pais maus

(Dr. Carlos Hecktheuer – Médico psiquiatra)

“Um dia, quando meus filhos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, hei de dizer-lhes:

– Eu os amei o suficiente para ter perguntado aonde vão, com quem vão e a que horas regressarão.

– Eu os amei o suficiente para não ter ficado em silêncio e fazer com que vocês soubessem que aquele novo amigo não era boa companhia.

– Eu os amei o suficiente para fazê-los pagar as balas que tiraram do supermercado, ou as revistas do jornaleiro, e fazê-los dizer ao dono: ‘Nós pegamos isto ontem e queríamos pagar’.

– Eu os amei o suficiente para ter ficado em pé junto de vocês, duas horas, enquanto limpavam o seu quarto, tarefa que eu teria feito em 15 minutos.

– Eu os amei o suficiente para deixá-los ver, além do amor que eu sentia por vocês, o desapontamento e também as lágrimas nos meus olhos.

– Eu os amei o suficiente para deixá-los assumir a responsabilidade de suas ações, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o coração.

– Mais do que tudo, eu os amei o suficiente para dizer-lhes ‘não’, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso (e em momentos até odiaram).

Essas eram as mais difíceis batalhas de todas.

Estou contente, venci… Porque, no final, vocês venceram também!

E em qualquer dia, quando meus netos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, quando eles lhes perguntarem se sua mãe era má, meus filhos lhes dirão: ‘Sim, nossa mãe era má! Era a mãe mais má do mundo…’. As outras crianças comiam doces no café, e nós tínhamos de comer cereais, ovos e torradas.

As outras crianças bebiam refrigerante e comiam batatas fritas e sorvete no almoço, e nós tínhamos de comer arroz, feijão, carne, legumes e frutas. Ela nos obrigava a jantar na mesa, bem diferente das outras mães, que deixavam seus filhos comerem vendo televisão. Ela insistia em saber onde estávamos a toda hora (tocava nosso celular de madrugada e ‘fuçava’ os nossos e-mails).

Era quase uma prisão. Mamãe tinha de saber quem eram nossos amigos e o que nós fazíamos com eles.

Insistia que lhe disséssemos com quem íamos sair, mesmo que demorássemos apenas uma hora ou menos.

Nós tínhamos vergonha de admitir, mas ela ‘violava as leis do trabalho infantil’.

Nós tínhamos de tirar a louça da mesa, arrumar nossas bagunças, esvaziar o lixo e fazer todo esse tipo de trabalho que achávamos cruéis. Eu acho que ela nem dormia à noite, pensando em coisas para nos mandar fazer.

Ela insistia sempre conosco para que lhe disséssemos sempre a verdade e apenas a verdade e, quando éramos adolescentes, ela conseguia até ler os nossos pensamentos. A nossa vida era mesmo chata.

Ela não deixava os nossos amigos tocarem a buzina para que saíssemos, eles tinham de subir, bater à porta, para conhecê-los. Enquanto todos podiam voltar tarde à noite, com 12 anos, tivemos de esperar até os 16 para chegar um pouco mais tarde, e aquela chata levantava para saber se a festa foi boa (só para ver como estávamos ao voltar).

Por causa de nossa mãe, nós perdemos imensas experiências na adolescência:

Nenhum de nós esteve envolvido com drogas, em roubo, em atos de vandalismo, em violação de propriedade, nem fomos presos por nenhum crime. FOI TUDO POR CAUSA DELA.”

Jovens, que eu tanto amo, encerro este nosso Papo Jovem com uma mensagem do livro Buscando o Amor dos Pais, de autoria do preletor Kamino Kusumoto, que recomendo a todos vocês: “Somente o amor dos pais já é suficiente para nos fazer reconhecer o amor de Deus. Mesmo que você tenha recordações desagradáveis de seus pais, se persistir em orar agradecendo a eles, um dia chegará à conclusão de que quem estava errado era você, que vinha odiando seus próprios pais. E então conseguirá realmente sentir gratidão por eles”.

 

Aspirante a Preletora da Sede Internacional Lílian Súzi Baffi Norimatsu

Presidente Nacional da Associação Pomba Branca (Associação das mulheres) da SEICHO-NO-IE DO BRASIL

Publicado na revista Mundo Ideal #251 – Junho/2015

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