Relação entre pais e filhos

Para que possamos aprofundar o conceito sobre a “relação entre pais e filhos” nos tempos atuais, gostaria de apresentar, em linhas gerais, segundo minha percepção, uma breve análise a respeito do modo de viver da nossa sociedade num âmbito global.

O mundo moderno segue correndo em busca de conquistas e avanços, mudando o “foco” dos interesses a cada instante. Coisas perdem o valor de uso rapidamente e são descartadas, e novas necessidades surgem dia após dia. O mercado se beneficia com nosso pouco interesse permanente e, mais do que isso, impõe um ritmo de mudança frenético, para nos criar novas “falsas” necessidades.

Esse modelo sugere uma vida vazia, sem comprometimento, sem raízes, tornando tudo descartável. Primeiro, copos e pratos; depois, roupas, carros e até relacionamentos. Vidas que se perdem de si mesmas por dedicar muito empenho a coisas sem valor, e não oferecer de si a coisas que realmente nos valorizam, que nos sensibilizam verdadeiramente e nos fazem crescer de verdade. Lampejos de felicidade que nos conduzem rumo ao objetivo de nossa vida, ao crescimento infinito.

Muito embora pareça que essas sejam prerrogativas sociais e que devam ser tratadas no âmbito da psicologia ou economia, elas residem num substrato pessoal de relevante valor e se entrelaçam no âmago de nossa vida, nos dão identidade e são, sim, o alicerce de nossa felicidade, alegria, satisfação e crescimento.

Mesmo num mundo moderno de pouca interatividade humana, onde talvez nos comportemos como máquinas de produção, inebriados pelo consumo e prazer, ainda assim, toda engrenagem geral demanda e depende de pessoas. Pessoas. Afinal, tudo é feito por elas, as pessoas, e consumido por elas mesmas.

Conhecer pessoas, seu comportamento, suas necessidades e suas ações deixou de ser um aspecto privado da vida íntima, objeto de confrontação da religião e psicologia e passou a figurar como uma necessidade essencial para permanência do modelo de crescimento do mundo atual.

Cada pessoa no mundo é um mundo, por isso a dificuldade de conhecer um modelo-padrão genérico que nos diga como “funciona” cada pessoa. Os aspectos físicos das pessoas são genéricos, mas o Universo interior é infinito e difere de pessoa para pessoa. Estabelecer uma forma de conhecer as pessoas passa a ser então um desafio de fazer com que cada pessoa possa se autoconhecer.

Buscar a essência do eu sugere encontrar-se a essência da vida. Um primeiro movimento que deu origem a nossa história, a nossa aparição. Não é difícil chegar aos pais. Este anseio interior de oferecer respaldo às expectativas dos pais não é algo que vem de fora, da sociedade ou da educação; não é um valor cultural ou secular, é um anseio que vem de dentro.

“Cumprir o dever filial” é uma ordem suprema ditada pela alma. Quando não se cumpre o dever filial, haverá arrependimento – o grito da consciência. (Preleções Sobre a Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade, 1ª. ed., Que É Deus; p. 55, Masaharu Taniguchi)

Impressionante talvez seja ouvir alguém dizendo: “Para que preciso agradecer a meus pais se nem lhes pedi para nascer?”. Muito embora, do ponto de vista cronológico, pareça um questionamento sustentável, se observarmos a vida pela lente da eternidade, veremos que nós já estávamos aqui antes mesmo de nossos pais nascerem, de modo que nosso vínculo é inquebrantável e nosso laço permanente.

Mais que um simples laço, nossos pais são o elo que nos liga a Deus, e romper esse elo, desfazer esse laço, significaria renunciar nossa natureza divina. Significaria negar a Deus. Por isso, a Revelação Divina da Grande Harmonia enfatiza: “Mesmo que agradeças a Deus, se não consegues, porém, agradecer a teus pais, não estás em conformidade com a vontade de Deus”. Podemos dizer que nossos pais são Deus, como disse o sagrado mestre Masaharu Taniguchi em A Verdade da Vida, v. 1: “O amor de Deus manifesta-se sob a forma de corpo carnal visível e palpável, através dos pais”.

Somente o amor dos pais já é suficiente para nos fazer reconhecer o amor de Deus. Esta frase, porém, parece que só é compreendida depois, quando nos tornamos pais também. Nossa ânsia por liberdade, muitas vezes, nos impede de receber o amor de nossos pais, de modo que só poderemos realmente avaliar e reconhecer a natureza amorosa de suas ações quando, por afinidade cármica, reproduzirmos os mesmos gestos com nossos filhos. Nesse momento, uma alma preparada é capaz de reconhecer os pais em seus gestos e finalmente, então, receber o seu amor.

Mesmo que a pessoa seja tocada por essa verdade, talvez não perceba o que isso tem a ver com a vida prática, de que maneira essa relação com os pais poderia influenciar o seu cotidiano e, até mesmo, o seu destino.

Deus é harmonia. Tudo o que vem de Deus é dotado de harmonia também, mais ainda, tudo que existe (está manifestado), pode-se afirmar, é autoexpressão de Deus. O princípio de automanifestação de Deus opera de maneira simples; a Ideia Origem, Um se divide em positivo e negativo, fazendo-se vibrar, dando início a toda manifestação.

“Quando a mente deste Deus perfeito entra em vibração e se torna palavra,   desenvolve-se todo o fenômeno e todas as coisas passam a ser.”

Assim, a manifestação perfeita é uma manifestação harmoniosa, entre positivo e negativo. Em nós reside a ideia origem do positivo e negativo, através da herança de nossos pais. Isso não é difícil de compreender quando se observa a naturalidade da vida, que alterna alto e baixo, cheio e vazio, em cima e em baixo… Homem e mulher, positivos e negativos. A natureza única de todos os eventos é hoje uma busca da física por campos de energia e muito embora não se disponha de ferramentas de observação pode-se perceber claramente que a plenitude e harmonia promovem a melhoria de vida, recuperação da saúde, crescimento econômico e aumento no índice de satisfação por viver. Quanto mais harmoniosa nossa vida, mais felicidade experimentamos.

Progride quem ama os pais. Essa compreensão é necessária para podermos comandar nosso destino, alinhar nossas ações com nossos desejos e caminhar a passos largos rumo aos nossos objetivos sem nos deixarmos levar por nossos medos, dificuldades ou limitações.

O mundo é projeção da mente. Essa é a lei que a Seicho-No-Ie nos oferece como ferramenta para a construção de nossos ideais. Ao afirmar que o destino é reflexo da mente, a Seicho-No-Ie nos convida à sanidade, nos acolhe sem falsas promessas, devolvendo-nos o cinzel que esculpe nossa vida. Entender que o amor e a gratidão aos pais são os únicos caminhos seguros para a vitória pode nos mostrar um atalho para as realizações e engrandecer nossas virtudes. Mesmo que nos esforcemos em atos hercúleos, serão passos sem vida se norteados pelo ódio e ganância, desafetos de infância. Não raro encontramos pessoas que deixaram a casa dos pais para “vencer na vida” e que, depois de tantas conquistas, se encontram desesperados, carentes de amor e cheios de remorso. Porém, quando nos empenhamos na busca pela verdadeira felicidade e a fazemos como uma oferta de amor e gratidão aos nossos pais, eles abençoam nossa fortuna e é como se Deus nos estivesse dizendo: “Meu filho, continue assim”.

Agradeça a seus pais. Também seu pai trabalhou com afinco, para que você pudesse frequentar a escola, adquirir roupas, ter alimentos. Fizesse sol ou chuva, calor ou frio, ele se esforçou trabalhando. Portanto, agradeça a seus pais, do fundo do coração. Agradeça-lhes dizendo:

“Papai e mamãe, muito obrigado!”. (Guia para uma Vida Feliz, 13ª. ed., cap. XVI, p. 171, Masaharu Taniguchi)

Compreenda seus pais. Muitas vezes nos irritamos e julgamos errôneas as atitudes de nossos pais conosco, ou as suas decisões em relação a nós. Porém, como dizia o poeta:

– Você diz que seus pais não o entendem, mas você não entende seus pais.

A crise nos lares é antes uma crise de compreensão: como amar meus pais se eu não os compreendo, eles também estão perpetuando modelos. Não nos cabe julgamento, cabe a nós a lição da aceitação, não por imposição, cultural ou ética, mas por compreensão de amor.

Agradecer aos pais é talvez o caminho mais simples para o sucesso. Não é nada difícil repetir ao acordar, pelo menos 20 vezes:

– Muito obrigado, papai. Muito obrigado, mamãe.

Fazendo isso, torna-se ainda mais fácil fazê-lo novamente antes de se deitar, mais 20 vezes.

– Muito obrigado, papai. Muito obrigado, mamãe.

É prática, é exercício… SINTONIA!

De modo que, assim, nós poderemos seguir adiante, com a certeza da bênção e da orientação de Deus e de nossos pais. Não deixe para depois, faça-o AGORA, dedique amor e gratidão aos seus pais.

Escreva-lhes um bilhete, uma carta, poesia ou canção.

Dê-lhes um sorriso de alegria, carinho e gratidão.

Seja você quem vence a si mesmo e abra as portas da sua casa para a alegria e a gratidão.

Agradeça a seus pais por mim, por terem feito você do jeitinho que você é e, assim, ser tão especial.

 

Preletor da Sede Internacional Fernando Antonio Mendes Marques

Artigo elaborado com a colaboração do Preletor em grau Sênior Fernando Loch

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