Seja você mesmo e expresse a criatividade amorosa de Deus

     Em O Livro dos Jovens, o mestre Masaharu Taniguchi diz: “Se vocês vieram a este mundo, é porque cada qual tem uma missão própria a cumprir aqui. Assim sendo, cada um de vocês deve procurar ser original, autêntico. Seja qual for o empreendimento que vocês vão realizar, seja qual for o caminho que pretendem seguir, não se contentem em apenas igualar-se aos outros”. Certamente o prof. Masaharu Taniguchi não está nos exaltando a compararmos nossos rendimentos ou posição social com os rendimentos ou a posição alcançados por outras pessoas e a nos esforçarmos para superá-las. Ele nos diz para sermos pessoas autênticas e originais, expressando nossa personalidade e dando nossa efetiva contribuição ao mundo, por meio do talento e capacidade que recebemos de Deus, isto é, pelo cumprimento da missão com que nascemos neste mundo.

     No filme O Clube do Imperador, um professor, interpretado por Kevin Kline, pede a um de seus alunos que vá até o fundo da sala e leia uma placa fixada acima da porta. O texto fala das conquistas militares de Shutruk Nahunte, soberano das Terras de Alan, na Antiga Grécia. Na sequência, o professor pergunta aos alunos se algum deles já ouvira falar sobre Shutruk Nahunte. Diante da negativa, o professor sugere aos estudantes que procurem no livro de história e, por fim, conclui: “Vocês não vão encontrar o nome dele nos livros de história nem referências a suas realizações. Por quê? Porque grande ambição e conquista sem contribuição não têm significado”. Prossegue o professor: “Sócrates, Platão e Aristóteles contribuíram com Teatro, História, Medicina, Matemática, Arquitetura, Escultura, Jogos Olímpicos e, por isso, estão em todos os livros de História e são lembrados e estudados até hoje. Veja, aqui está a diferença”.

     Lembre-se: grande ambição e conquista sem contribuição não têm significado. Se você quer que sua história de vida faça algum sentido, precisa ter a firme determinação de dar sua contribuição à família, à sociedade e ao mundo. Talvez você não se ache em condições de dar ao mundo uma contribuição realmente significativa, mas isso não é verdade. Leo Buscaglia, recentemente falecido, autor de livros como Amor e Vivendo, Aprendendo e Amando, dizia: “Você é o melhor você que existe, porque você é o único você que existe”. Isso pode parecer um simples trocadilho ou um dito humorístico, mas é algo absolutamente verdadeiro. Você é uma criação única de Deus e é um canal exclusivo, por onde devem fluir muitas ideias divinas.

     Ninguém poderá dar uma grande contribuição ao mundo simplesmente seguindo pelo mesmo caminho trilhado anteriormente por outras pessoas. Hoje o mundo vive em constante transformação, e em um mês geramos mais informação do que em 6 mil anos de cultura. A sociedade altamente midiatizada, marcada pela presença maciça da técnica, permeando os processos sociais, parece o espaço ideal para que todos possam expressar livremente suas ideias e sua personalidade. Isso pode dar a falsa ilusão de uma democratização da livre expressão. Os computadores e a internet são exaltados como a grande revolução do milênio, mas, em grande medida, não passam de ferramentas e canais para o reordenamento mercadológico do mundo e a circulação acelerada de capitais especulativos e trânsito ilimitado de commodities. Mais preciso do que chamar esse processo de revolução é defini-lo como mutação tecnológica, como propõe Muniz Sodré no seu Antropologia do Espelho. A sociedade em rede é altamente conservadora e visa à reprodução e à manutenção dos processos de dominação e exclusão.

     Não é o simples uso de interfaces de tecnologias que nos permitirá expressar nossa personalidade e agregar novos valores à sociedade humana. Não poderemos manifestar nossa individualidade se nos conformarmos simplesmente em seguir as determinações e as tendências de mercado ou procurarmos apenas nos enquadrar aos modelos de sucesso que a sociedade reconhece. Não trace como objetivo final de sua vida uma realização narcisista, apenas para ser reconhecido pela sociedade consumista, como uma pessoa bem-sucedida. Ser verdadeiramente bem-sucedido é corresponder aos anseios de nosso “Eu verdadeiro”, que é filho de Deus.

     Não é correta a visão de que o futuro já chegou, e a nós basta adaptarmo-nos ao modelo de sociedade existente e vencer no seio desta sociedade globalizada. Nunca como agora o mundo precisou tanto de pessoas dispostas a abrir novos caminhos. O modelo baseado no consumo e no mercado já esgotou suas possibilidades. Precisamos reinventar os nossos modelos de socialização, os modos de produção, de compartilhamento de riquezas e nossa relação com as outras formas de vida e com o planeta.

     Meu primeiro trabalho profissional foi com um fotógrafo que sofria de câncer de pele e que havia sido tratado por vários médicos e submetido a algumas cirurgias até chegar à cura ao ser tratado por um, então, jovem médico chamado Dráuzio Varella, hoje bastante conhecido. Certamente o que fez diferença na carreira e na vida do dr. Dráuzio foi, em primeiro lugar, o desejo de dar sua contribuição à humanidade e a atitude de não se conformar em simplesmente aprender e aplicar os tratamentos e métodos estabelecidos. Foi um dos pioneiros na pesquisa e tratamento da aids no Brasil. Nos anos 80, o dr. Dráuzio Varella começou a realizar um trabalho voluntário, dedicando as segundas-feiras a prestar assistência médica aos detentos da Casa de Detenção do Carandiru, hoje desativada. Ele perseverou nesse trabalho durante mais de dez anos. Constantemente deparava com dramas terríveis e chocantes. Tempos depois, numa entrevista, ele afirmou que, ao final de cada dia dedicado a eles, decidia que não retornaria mais, porém, na segunda-feira seguinte, refeito, estava ele novamente na Casa de Detenção, seguindo com seu trabalho. Essas experiências, mais tarde, quando já era um médico famoso e consagrado, permitiram-lhe abrir um novo caminho, tornando-se autor do best seller Carandiru. Recentemente lançou seu segundo livro, Carcereiros, com tiragem inicial de 100 mil exemplares, um número astronômico para uma tiragem inicial no mercado editorial brasileiro.

     Não é apenas um médico ou um cientista que podem expressar sua personalidade e acrescentar novos valores e oferecer ao mundo uma contribuição importante. Certa vez, tomei um ônibus na Cidade Universitária, seguindo para Avenida Paulista. O cobrador era um rapaz negro e alto, bastante sorridente. O que o diferenciava dos demais cobradores é que ele, a cada parada, informava aos passageiros nossa localização. Por exemplo, quando nos aproximávamos do shopping center, ele anunciava: “Atenção, quem vai ao shopping. Próxima parada Shopping Eldorado”. O ônibus seguia pelo corredor exclusivo de ônibus e tinha porta dos dois lados, por isso o cobrador tinha inclusive a atenção de informar de que lado as portas iriam se abrir. Dizia, por exemplo: “Próxima parada Avenida Faria Lima, as portas vão se abrir do lado direito”. Esse tipo de informação é padrão do metrô, mas aquele cobrador de ônibus, por iniciativa própria, agregou à sua rotina de trabalho esse procedimento. No percurso, um senhor pediu para ser avisado quando chegasse a uma determinada parada. Quando se aproximava a parada solicitada, o cobrador informou ao senhor que ele deveria descer e, chamando o motorista pelo nome, disse: “Dê uma parada no próximo ponto, que vai descer um amigão meu”. Esse é um bom exemplo de que, seja qual for o trabalho que venhamos a realizar, sempre podemos acrescentar valores e expressar nossa personalidade, dando nossa contribuição ao mundo, ainda que seja apenas para tornar mais agradável uma simples viagem de ônibus.

     Seja você mesmo, expressando sua criatividade amorosa, e dê uma contribuição efetiva à humanidade e ao mundo. Lembre-se de que você é filho de Deus e que em seu interior existem infinitas ideias. À medida que for expressando sua criatividade, por mais simples que sejam suas ideias, um canal se abrirá, para que, cada vez mais, surjam ideias mais expressivas e de maior vulto.

     Aspirante a Preletor da Sede Internacional Eduardo Nunes da Silva

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Este artigo foi publicado na Revista Mundo Ideal de março de 2013.

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