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“O homem é belo individualmente, mas o aspecto das pessoas que vivem colaborando harmoniosamente entre si é tão belo quanto uma sinfonia” TANIGUCHI, Masaharu. Preceitos de Luz.

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Quando fui convidado para conversar com os jovens por meio do Papo Jovem, lembrei-me do saudoso prof. Miyoshi Matsuda, que dizia sempre em suas palestras: “Se os jovens mudarem, o mundo mudará”. Quanta saudade desse grande líder, que sempre amou os jovens! Tenho certeza de que ele sabia que toda mudança passa pelos jovens, mas também que estão eles expostos às vicissitudes das ideologias, dos modismos porque têm o coração puro.

Os modismos, as ideologias e o conflito entre gerações não são frutos de nossa época e geralmente são vistos como “uma fase a ser superada”. Isso é injusto. Sempre achei que os mais velhos implicam com a ousadia dos jovens, com sua implicância, teimosia e, às vezes, arrogância. Agir por impulso, negar os modelos anteriores são maneiras com que as novas gerações tentam superar os padrões estabelecidos por seus pais e avós, o que é saudável, já que a renovação é muito necessária em todo e qualquer tempo. É a partir da superação dos desafios deixados pelas gerações anteriores que a humanidade progride.

Esse desejo de superação está dentro de cada um de nós, faz parte da natureza humana. O prof. Masaharu Taniguchi expressa isso nas seguintes palavras:

Assim como no mundo vegetal surge, vez ou outra, uma planta com propriedades superiores que a tornam uma espécie nova ainda melhor; também no mundo humano, o poder, a genialidade e o caráter espiritual de pessoas nobres e honradas anseiam trilhar o caminho que conduz aos níveis ulteriores da evolução, e aguardam o surgimento de um homem superior que transcenda o atual nível de evolução da humanidade. (TANIGUCHI, Masaharu. A Verdade, v. Suplementar, São Paulo, Seicho-No-Ie, 2007)

O anseio a que se refere o prof. Taniguchi é algo muito positivo, porém é algo latente, uma força inerte que depende de “como” e “para onde” será direcionada.

É muito difícil avaliar se os jovens estão ou não caminhando para a direção certa. Quem afirmar algo nesse sentido corre o risco de cometer um grave erro. Então, o que fazer? É importante ter uma leitura do mundo em que se vive, para não se tornar vítima das armadilhas preparadas para fazer os jovens perderem a capacidade de sonhar e manifestar o seu nobre ideal.

Michel Serres, no livro Polegarzinha, escreve:

As crianças e os jovens são formados pela mídia propagada por adultos que meticulosamente destruíram a faculdade de atenção deles, reduzindo a duração das imagens a 7 segundos e o tempo de resposta às perguntas a 15 – são números oficiais. A palavra mais repetida é “morte”, e a imagem mais representada é a de cadáveres. Com 12 anos, os adultos já os forçaram a ver mais de 20 mil assassinatos. (SERRES, M. Polegarzinha, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2013)

E, então, o que você pensa a respeito da afirmação de Serres? Quais são as consequências dessa exposição? Você se sente realmente atingido pela ação da mídia?

A pergunta a que tentarei responder agora é: quais são as consequências da afirmação de Serres? Estão os jovens reféns de um mundo veloz e das relações voláteis, que evaporam rapidamente, consequência dessa velocidade estabelecida?

 

Um pouco de história

 A Revolução Francesa provocou mudanças sociais importantes que nos afetam até hoje. Começam a se firmar a partir dos ideais revolucionários, quando a individualidade passa a ter um papel central na vida social. Como lemos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada pela Assembleia Constituinte Francesa em 26/8/1789: “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direito”. A associação política tem o objetivo de assegurar a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão. Lembremos que esses ideais fazem parte de uma tentativa de romper, inclusive, com a influência do pensamento religioso da época. O absolutismo cede lugar ao liberalismo e, como resultado, o ser humano pouco a pouco se torna o centro de tudo.

Outra marca importante, consequência das mudanças que começaram no século XVII, diz respeito ao abismo que se abriu, nos dias de hoje, entre as gerações e ao encurtamento de tempo em que esse abismo se dá. Explico: cada vez mais precocemente os jovens rejeitam os pensamentos e o modo de viver dos pais. Trabalhando com adolescentes, noto que a distância entre irmãos também se estabeleceu. As diferenças criadas pelos adultos são tantas que se criou uma grande distância entre eles. Isso chega a ponto de os irmãos mais novos tentarem quebrar os vínculos com a geração dos irmãos mais velhos.

E esse estreitamento tem um motivo: a busca pelo novo. A substituição do obsoleto tem-se tornado marca registrada da atualidade. Na sociedade dos bens duráveis, os verbos conjugados eram: conservar, garantir, manter, durar, evitar desperdício. Era um orgulho dizer: “Esse relógio pertenceu ao meu avô”, “Esse enxoval minha avó deixou de presente para quando eu casar”. Já imagino a expressão de alguns jovens lendo isso. Acho que irão fazer uma tremenda careta e dizer: “Esse cara tá brizando. Usar algo do meu avô?”. Concordo, até porque as mudanças são tão velozes que, provavelmente, quando eu terminar de escrever esse texto seu smartphone já ficou para trás.

Na era moderna, acontece o contrário. A destruição tornou-se uma das principais alavancas da produção, e a depreciação planejada dos bens e das criações humanas passou a alimentar uma economia baseada no desperdício, que propicia a nova produção. O consumo deixa de ser um meio para a satisfação das necessidades humanas e se torna uma forma de incrementar a produtividade.

Como afirma Baumman: “A ‘subjetividade’ dos consumidores é feita de opções de compra – opções assumidas pelo sujeito e seus potenciais compradores; sua descrição adquire a forma de uma lista de compras. O que se supõe ser a materialização da verdade interior do self é uma idealização dos traços materiais – ‘objetificados’ – das escolhas do consumidor”. Em outras palavras, para criar o novo e produzir ininterruptamente, o indivíduo desenvolve um verdadeiro culto à atividade produtiva. Os verbos conjugados agora são outros: trocar, consumir, descartar, livrar-se, substituir. Isso tudo mascarado pela ideia de “inovar”, “atualizar”.

A ordem é colocar o objeto, ou seja, o produto (computador, celular, carro, roupas), dentro da própria pessoa, ou seja, pôr o sujeito e o objeto em um único lugar. É como se você se identificasse tanto com seu, por exemplo, celular, a ponto de percebê-lo e senti-lo como parte do seu próprio corpo. Eu e meu celular somos um só. Entendeu o porquê de estarmos vivendo na sociedade dos selfs que transitam livremente nas redes sociais? Os objetos assim passam a ter um valor intrínseco.

E os relacionamentos, como ficam? Se desejamos e buscamos sempre o novo, pensar num relacionamento duradouro é um risco. Risco? Sim! Na sociedade atual, a velocidade é tudo. Quanto mais tempo eu “perco” com algo ou alguém, menos experimento o novo. Por isso, o “ficar” colou tanto e tão rapidamente. Por isso, as amizades virtuais são sentidas como ótimas. Afinal, com um clique eu fico amigo, e com outro clique eu desfaço a amizade. Nem notamos quanto tempo desperdiçamos usando nossos polegares para conversar com os amigos virtuais (de preferência uns cinco ou seis ao mesmo tempo!) e que deixamos de lado uma conversa com os amigos “presenciais”. Já repararam nas famílias em restaurantes? Os filhos nos celulares, e os pais (sim, os pais!) olhando para as TVs, dependuradas nos quatro cantos do restaurante.

Agindo assim, perdemos o sentido da própria vida, pois rompemos nossos vínculos familiares, comunitários. E, devido à nossa natureza social, não conseguimos viver isoladamente. Se hoje falamos, andamos e nos expressamos culturalmente, é porque convivemos com outras pessoas. Como bem sabem nossos irmãos africanos que cunharam o conceito “Ubuntu”, nós construímos nossa humanidade por meio da humanidade dos outros.

E como sair desta? Como não se deixar levar por esta onda toda? Como não cair na armadilha de viver uma vida fútil, volátil, líquida, no conceito de Baumman? Como escapar do consumismo, do isolamento e ao mesmo tempo ser eu mesmo e estar atualizado? Essas perguntas traduzem um pensamento muito comum que é colocar em campos opostos a individualidade e a coletividade. Como se tivéssemos de escolher entre a subjetividade e a universalidade.

Mas brilhantemente o prof. Masaharu Taniguchi resolve esse dilema quebrando o paradigma da sociedade materialista, que coloca o objeto em oposição ao indivíduo e o indivíduo em oposição ao outro, quando ele explica no livro A Verdade da Vida, v. 13, no capítulo “O indivíduo no todo”:

Será que o ser individual é um produto da ilusão que consiste em considerar existente o que não existe realmente? (…) A Seicho-No-Ie não aceita essa teoria. Pelo contrário, ela ensina que, quanto mais claramente o homem manifestar sua individualidade, mais ele se integrará na Vida universal.

Se o papel do materialismo é dividir, o da religião é religar. Quero dizer com isso que esse conflito entre sua individualidade e o desejo de realizar algo em prol do todo não é incompatível. Na verdade, essas duas forças que operam dentro de nós não são antagônicas, mas complementares. Para provar seu ponto de vista, o prof. Taniguchi cita o relógio como exemplo. Cada peça tem uma função específica e, quanto mais cada peça manifestar suas características, ou seja, sua individualidade, mais preciso se tornará o relógio e ele poderá cumprir sua missão, que é marcar com exatidão as horas.

Assim sendo, a individualidade representa a missão atribuída a cada vida menor. No caso do relógio, cada peça tem sua função na engrenagem. Assim como cada ser humano tem sua função e está ligado à Grande Vida. Mais adiante, o prof. Taniguchi explica que a individualidade de uma pessoa é a característica, ou por extensão o dom, que só essa pessoa possui. Portanto, se você manifestar plenamente a missão atribuída a você pela Grande Vida (universalidade), mais estará manifestando sua individualidade.

E como descobrir sua missão? Que tal perguntar a quem realmente pode responder seguramente a essa dúvida?

A oração que faremos hoje é um trecho da Oração para Manifestar o Valor da Individualidade. Essa oração se encontra no livro A Verdade em Orações, v. I, do prof. Masaharu Taniguchi.

Deus é infinito, é espírito criador, e possui dentro de Si infinitas formas de pensamento boas, belas e harmônicas. À forma de pensamento de Deus dá-se o nome de Ideia. As infinitamente diversas formas boas, belas e harmônicas, constituídas pelo pensamento de Deus, é que, exteriorizadas no mundo fenomênico, transformam-se em coisas e fatos visíveis. Em outras palavras, Deus possui dentro de si infinitos modelos de criação. Por isso, Ele não aprecia a produção repetida de uma mesma coisa. Assim, novas criações e novos progressos são a vontade de Deus.

E então, jovens? Que tal o desafio? Não se deixe levar pelos modismos. Afaste-se um pouco da velocidade do dia, avalie sua vida, pense no futuro como se ele fosse acontecer amanhã e coloque em ação o que Deus mais aprecia em você, que é o seu Ideal interno, e viva assim uma vida de real valor.

Deixo aqui uma parte do poema que me acompanha e me encoraja até hoje nos momentos de desânimo.

Não importa a tua idade,
idealiza um grande sonho,
tão grandioso como o céu.
O teu sonho transcenderá o teu corpo,
subirá, crescerá e se expandirá além;
com resplendor, preencherá o Universo
e se transformará em asas misteriosas
que te levarão a um mundo bem mais alto.
Nas asas do sonho,
os jovens avançam
e os velhos se renovam.

Idealiza um Grande Sonho

Masaharu Taniguchi

 

Skank Formato Mínimo https://www.youtube.com/watch?v=BtEQ1Tcsz-0

A música faz você refletir a respeito das relações fugazes, ou seja, superficiais, que muitos, jovens ou não, acabam experimentando. E, então, vai se deixar levar?

Preletor da Sede Internacional Marcos Rogério Silvestre Vaz Pinto

Publicado na revista Mundo Ideal #246 – Janeiro/2015

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