Travei. E agora?

O que fazer para lidar com a timidez, que nos deixa sem ação e nos faz “travar” quando mais queremos compartilhar nossas ideias com o grupo ou simplesmente queremos ser aceitos pelos amigos? Não pense que você é a única pessoa a passar por situações como essa. Acho que isso é quase uma constante na vida de todo adolescente, mas não é um problema que se limita à adolescência, há muitos casos em que se estende até a vida adulta.

O mestre Masaharu Taniguchi diz no seu livro Leve Avante Sua Vida: “Entre seus conhecidos não existe alguém que se inibe quando tem de falar em público, sentindo-se nervoso e inseguro? Que não consegue encarar as pessoas ou não consegue falar o que pretende? E que fica remoendo ‘Por que sou tão tímido? Por que fico inibido?’ e acaba se autorreprimindo? Se existe, é porque ainda não se conscientizou de que é filho de Deus”. Talvez a pessoa com esse perfil seja você mesmo, que sofre com situações indesejáveis e sonha em poder expressar-se com naturalidade e desenvoltura.

Por causa da falta de conscientização de que é um filho de Deus, na maioria das vezes, as pessoas têm tendência à autodepreciação, que desencadeia um processo interior, como uma voz que nos insulta e humilha continuamente. No artigo “Ganhar e perder entre as orelhas”, publicado na revista Mente e Cérebro, 208, o médico Michael Spitzbart, diretor da primeira clínica da Alemanha para pessoas saudáveis, diz que “primeiramente, é preciso interromper o ‘diálogo interno’ – uma espécie de bate-papo repetitivo (e em geral com teor acusatório) – que acontece em nossa cabeça quando, por exemplo, nos cobramos por eventuais falhas. Essa discussão interior é algo muito diferente de reconhecer os próprios erros e traçar estratégias para não voltar a cometê-los. Em geral, acontece de forma consciente, mas é alimentada pelo subconsciente; por isso, nem sempre é simples ter controle sobre ela”.

Sobre a pessoa tímida, o mestre Masaharu Taniguchi comenta, em Leve Avante a Sua Vida, que “uma pessoa assim acaba achando que os outros julgam negativamente todos os seus atos, e isso a faz com que se iniba ainda mais, limitando a sua capacidade de comunicação. Tal pessoa julga a si mesma inferior e infeliz em relação aos outros: todos são perfeitos, bonitos, mas ela não”. E prossegue o Mestre: “Pessoas desse tipo devem jogar fora esses pensamentos pessimistas”. Em seu artigo, o médico Spitzbart dá uma receita de como sair vitorioso nos momentos de hesitação: “Quando quiser afastar hesitações que podem enfraquecê-lo em momentos decisivos (ao apresentar trabalhos, submeter-se a uma entrevista de emprego, participar de uma reunião importante ou conversar com alguém querido sobre tema difícil), você pode realizar um exercício duas vezes por dia, durante dez minutos, com intervalo de algumas horas entre eles. Assim que estiver totalmente relaxado, visualize os seus objetivos pessoais em imagens as mais marcantes possíveis, dizendo a si mesmo que o objetivo já foi atingido. E, então, deixe que seu cérebro faça o resto”. Quando Spitzbart diz cérebro, certamente não se refere ao aparelho cerebral, mas à mente. E, se, como ele diz, a mente fará o resto, devemos compreender que os bloqueios também se originam da mente. Em A Verdade da Vida, v. 18, o mestre Masaharu Taniguchi diz que “sofre de inibição geralmente aquele que esconde seus defeitos e teme que eles sejam descobertos pelos outros”. E prossegue o Mestre: “A inibição ocorre também quando a pessoa não está reconciliada com alguém, principalmente com os pais. […] tal pessoa deve agradecer aos pais durante a Meditação Shinsokan, mentalizando repetidas vezes ‘Obrigado, papai e mamãe’. Quando a pessoa se sentir realmente grata, desaparecerá sua inibição”.

As pessoas tímidas, para superar suas limitações, devem expandir sua personalidade. A personalidade abrangente é característica fundamental para os que desejam liderar e se destacar na sociedade. Mas o que é uma personalidade abrangente? É a personalidade que atrai muitas pessoas. A personalidade abrangente é aquela que se interessa sinceramente pelas pessoas, que as acolhe e as faz sentir importantes. Quando participamos de Seminários de Treinamento Espiritual nas Academias da Seicho-No-Ie, é tradição fazer uma foto com todos os participantes no pátio da Academia, de lembrança. Depois são feitas cópias para que todos possam levar como recordação. Quando as cópias das fotos são entregues aos participantes que as solicitaram, invariavelmente, todos procuram a si próprio na foto. É um gesto natural. Toda pessoa normal gosta de si mesma e quer sair bem, seja numa foto ou na vida. Se as pessoas estão interessadas em si próprias, aquele que demonstra estar interessada por elas naturalmente será benquisto. As pessoas inibidas, em vez de tentarem exibir suas qualidades e brilhantismo ou tentarem parecer melhores do que realmente são, devem procurar demonstrar interesse pelos outros. A melhor forma de tornar uma conversação agradável e ser bem recebido pelos outros é mostrar-se interessado pelos demais e pelo que eles fazem. Se alguém estiver falando sobre algo, faça-lhe perguntas sobre o assunto abordado, dê mais espaço para que ele possa se expressar. Logo você próprio perceberá que todos estão simpatizando com você e assim se sentirá à vontade para também se expressar livremente.

Certa vez, fui com algumas pessoas visitar uma família, e a dona da casa, de antemão, pediu desculpas pelo marido. Ela disse que ele estava em casa, mas que não era de dar atenção às visitas e habitualmente tratava as pessoas de maneira seca. Ao chegar a essa casa, percebi que era um imóvel muito bonito, funcional, e que fora concebida de maneira muito criativa. Ao entrar, cumprimentamos o marido da senhora que nos havia convidado, e eu disse, sem nenhuma pretensão: “Que bela casa!”. Para minha surpresa, aquele senhor, a quem acabara de ser apresentado, era arquiteto e ele mesmo havia projetado a casa. O seu rosto se iluminou com minha observação, e ele, que supostamente seria uma pessoa seca e distante, pessoalmente se dispôs a mostrar todas as dependências da casa. Um dos cômodos era circular, e ele comentou que, como os pedreiros que contratara não conseguiam fazer a parede circular, como fora concebida, ele mesmo assentou os tijolos pessoalmente. Por fim, tivemos uma acolhida calorosa e agradável, apenas fazendo um elogio sincero e demonstrando interesse por algo caro à pessoa. Dale Carnegie escreveu em Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas: “Faça a outra pessoa sentir-se importante, mas faça-o sinceramente”.

Tudo o que tem forma foi concebido primeiramente no mundo mental. No artigo “Ganhar e perder entre as orelhas”, Michael Spitzbart diz que “uma postura mental adequada e o firme desejo consciente de vencer podem tornar o amador um vencedor – e isso vale não apenas para o esportista, mas para qualquer um que queira realizar com êxito uma atividade”. E prossegue: “Excelentes desempenhos – seja no esporte, na profissão ou na vida pessoal – muitas vezes são alcançados ‘antecipadamente’”. No artigo, Spitzbart cita três alemães, o tenista Boris Becker, o goleiro Oliver Kahn e o piloto Michael Schumacher, e o boxeador ucraniano Wladimir Klitschko, e diz que estes esportistas de sucesso têm em comum o hábito de imaginar ou tentar sonhar com o objetivo desejado já realizado, criando na mente uma situação favorável. Você também pode usar o mesmo princípio. Em momentos de descontração e principalmente no momento de dormir, ou durante a Meditação Shinsokan, que antecede o sono, ou quando já estiver deitado, visualize a si mesmo numa roda de amigos, conversando descontraidamente ou discursando em público. Você passará uma mensagem clara a seu subconsciente de que é seguro e possível conviver de maneira harmoniosa, alegre e descontraída, e ele trabalhará diligentemente, eliminando bloqueios e criando a situação conforme concebida na mente.

Em 1977, eu era membro da Associação dos Jovens da Seicho-No-Ie, e minha Associação Local organizou uma conferência para jovens tendo como meta reunir 500 pessoas. Eu estudava pela manhã e tinha as tardes livres. Numa tarde de quinta-feira, fui a uma reunião de senhoras da Seicho-No-Ie para divulgar a conferência, para que elas pudessem adquirir os convites para seus filhos. Cheguei e entreguei um folheto de divulgação a uma das dirigentes da reunião, pedindo para que elas divulgassem o evento e, se houvesse interessadas, eu estaria no fundo do salão com os convites e para mais informações. Para minha surpresa, fui chamado à frente para fazer a divulgação, pessoalmente. O máximo que consegui fazer foi não entrar em pânico, mas, sinceramente, não tenho a mínima ideia do que eu disse ou se consegui dizer alguma coisa. Voltei para casa me sentindo o último entre os últimos. Mas no caminho vim refletindo sobre a situação embaraçosa que havia passado e também sobre o meu ideal como membro da Associação dos Jovens da Seicho-No-Ie. Lembrei-me do capítulo de O Livro dos Jovens intitulado “Exercitem o poder da palavra” e, ao chegar em casa, fui imediatamente ler as palavras do mestre Masaharu Taniguchi. Em certo trecho, ele escreve: “Dizem que a repetição das experiências elimina o medo inicial. Isso é uma verdade. Conheço muitas pessoas que, no começo, ficavam enrubescidas e trêmulas ao falar diante de muita gente, mas acabaram acostumando e perdendo totalmente o medo de falar em público após passarem por repetidas experiências, incitando a própria coragem”. Depois de ler o capítulo inteiro, tomei a decisão de voltar na próxima semana à reunião de senhoras e pedir para falar novamente. Durante toda a semana seguinte, fiquei imaginando a situação em que discursava desembaraçadamente diante do público, pensando nas expressões que usaria para divulgar a conferência. Ao retornar, não só consegui falar com clareza, como também divulguei vários convites.

Para vencer a inibição, em primeiro lugar, é preciso aprofundar a convicção de que você é um filho de Deus com a prática constante da Meditação Shinsokan e também aprofundar o sentimento de gratidão aos pais. Busque a orientação necessária em livros como O Livro dos Jovens, Leve Avante Sua Vida e Ensinamento da Verdade para Jovens etc. Você é “luz do mundo”, e a luz não deve permanecer oculta. Rompa as barreiras da timidez e ofereça o esplendor de sua personalidade à sociedade e ao mundo.

Preletor da Sede Internacional Eduardo Nunes

Publicado na revista Mundo Ideal #248 – Março/2015

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